Por Carlos Calado

CINE BARONESA - Guinga (selo Caravelas)
31/3/2001

Maior revelação da música popular brasileira nos anos 1990, Guinga volta a folhear seu álbum de recordações sentimentais e sonoras. "Cine Baronesa" é, praticamente, uma continuação de "Suíte Leopoldina", o primoroso álbum de 1999, no qual o compositor e violonista carioca traduziu em melodias passagens de sua adolescência, marcadas por viagens frequentes em trens de subúrbio. Desta vez, o ponto de partida para uma nova série de lembranças e tributos carregados de nostalgia é o cinema que o compositor frequentava na juventude. A homenagem se dá na delicada faixa-título, que destaca os vocalises emotivos, mas sempre seguros, da cantora Fátima Guedes, muito bem acompanhada pelos violões do Quarteto Maogani.

Como já acontecera no disco anterior, em "Cine Baronesa" predominam composições instrumentais. A sensível "Melodia Branca", que abre o álbum com um belo arranjo de cordas do pianista Gilson Peranzzetta, volta após as outras 11 faixas, interpretada apenas pelo autor, ao violão. Veículo para o talento do maestro e clarinetista Nailor “Proveta” Azevedo (líder da Banda Mantiqueira), o frevo "Vô Alfredo" traz um arranjo delicioso, que injeta sofisticação na sonoridade das bandinhas de coreto. O frevo "Geraldo no Leme" parece inspirado em Hermeto Pascoal (homenageado no disco anterior), com os violões de Guinga e Lula Galvão dialogando com um afiado naipe de sopros.

Duas novas parcerias de Guinga com o letrista Aldir Blanc confirmam a química perfeita da dupla, no setor das canções. O arranjo da jazzística "Yes, Zé Manés" parafraseia "Summertime" (de George Gershwin) na introdução, com Chico Buarque nos vocais (“A atmosfera / zera a geografia / eu ouço na Bahia / sons de Georgia on My Mind”). É o próprio Guinga que canta o samba-choro "Orasamba", com fusões de palavras reforçando a estranheza da melodia (“Tempestarde / chuvabismo / relampeado azulejei com a luz / além-rebentação”). Precioso também é "No Fundo do Rio",  samba em parceria com Ney Lopes, que também divide os vocais com Guinga. O Quarteto Maogani retorna em "Fox e Trote" (outra letra de Ney Lopes), um fox cheio de malandragem (“Municipal, um recital e eu de calça Lee / foi como um trio elétrico descendo o Pelô / desrespeitando Dona Canô”). Este disco de Guinga produz o mesmo efeito de suas insólitas melodias: mal acaba-se de ouvir, já surge a curiosidade de saber o que o “doutor” das cordas vai aprontar na próxima.